ESTUDOS SOBRE O MASHIACH PARTE I

O Servo Sofredor na Literatura Rabínica: Isaías 53 e o Rei Messias

A identidade do Servo Sofredor de Isaías 52:13–53:12 é um dos temas mais debatidos na interpretação judaica e cristã das Escrituras. Enquanto muitos rabinos medievais passaram a interpretar essa passagem como uma referência coletiva ao povo de Israel, numerosas fontes antigas do Judaísmo — incluindo o Targum, Midrashim, Talmude e Zohar — aplicam explicitamente essa profecia ao Rei Messias.

O objetivo deste estudo é demonstrar que a interpretação messiânica de Isaías 53 possui raízes profundas na tradição rabínica. Longe de constituir uma leitura exclusivamente cristã, essa compreensão encontra respaldo em importantes autoridades judaicas ao longo dos séculos, revelando que o Messias seria um servo sofredor que carregaria os pecados, enfermidades e dores de Israel antes de ser exaltado pelo Eterno.

1. O testemunho do Targum Jonathan

O primeiro grande testemunho encontra-se no Targum Jonathan, tradução aramaica dos Profetas utilizada nas sinagogas.

Ao comentar Isaías 52:13, o Targum afirma:

> ” *Eis que prosperará o meu Servo, o Messias; será engrandecido, exaltado e elevado sobremaneira.”*

Diferentemente das interpretações posteriores que identificam o Servo com Israel, o Targum identifica explicitamente o Servo como o Rei Messias, preservando uma tradição judaica extremamente antiga.

2. Rabbi Moshe* *Kohen ibn Crispin

O rabino espanhol Moshe Kohen ibn Crispin (século XIV) criticou severamente os intérpretes que aplicavam Isaías 53 ao povo de Israel.

Ele escreveu:

> ” Tenho prazer em interpretar esta profecia conforme o ensinamento dos nossos rabinos, entendendo que ela se refere ao Rei Messias.”

Segundo Ibn Crispin, Isaías recebeu essa revelação para que Israel pudesse reconhecer o verdadeiro Messias quando viesse.

Ele acrescenta:

> ” Se alguém aparecer dizendo ser o Messias, devemos examinar se nele existem as características descritas em Isaías 53.”

Além disso, afirma que o Messias possuiria uma posição superior aos próprios anjos ministradores:

> ” É impossível que um homem comum alcance posição tão elevada.”

Essa afirmação recorda diretamente Hebreus 1, onde o Messias é apresentado como superior aos anjos.

3. Nachmânides (Ramban)

O célebre rabino Moshe ben Nachman (Ramban) sustentou, em seu famoso debate com Pablo Christiani, que Isaías 53 se refere ao povo de Israel.

Entretanto, o próprio Ramban reconhece:

> ” Existem muitas passagens da Hagadá que interpretam Isaías 53 acerca do Rei Messias.”

Sua declaração demonstra que, embora defendesse outra interpretação, admitia a existência de uma antiga tradição rabínica messiânica.

4. O Talmude

O Talmude Babilônico, Sanhedrin 98b, discute o nome do Messias.

Os rabinos perguntam:

> ” Qual é o nome do Messias? “

Uma das respostas afirma:

> ” O Leproso.”

A justificativa é dada pela citação direta de Isaías:

> ” Certamente tomou sobre si as nossas enfermidades.” (Isaías 53:4)

O próprio Talmude aplica Isaías 53 ao Messias sofredor.

5. Midrash Rabbah

No Rute Rabbah 5:6, comentando Rute 2:14, encontramos:

> ” Aproxima-te… isto se refere ao Rei Messias .”

Logo em seguida o Midrash cita:

> ” *Mas ele foi ferido pelas nossas transgressões.” (Isaías 53:5)*

Assim, o Midrash interpreta Isaías 53 como descrição do sofrimento do Rei Messias.

6. Midrash Lekach Tov

Comentando Números 24:7, o Midrash Lekach Tov declara:

> ” Nos dias do Messias…”

e cita imediatamente:

> ” Eis que o meu Servo prosperará…” (Isaías 52:13)

Dessa forma, o início da profecia do Servo Sofredor também é aplicado diretamente ao Messias.

7. O Rebe de Lubavitch

O Rabino Menachem Mendel Schneerson, conhecido como Rebe de Lubavitch, comenta Isaías 52:13 dizendo:

> ” Esta passagem refere-se ao Servo, o Messias .”

Ele acrescenta que o Messias será:

maior que Abraão;

maior que Isaque;

maior que Jacó;

maior que Moisés;

maior que Adão Kadmon.

Segundo suas palavras:

> ” Moisés foi o primeiro redentor, porém o Rei Messias será maior.”

Essa interpretação atribui ao Messias uma dignidade extraordinária dentro da tradição mística judaica.

8. Yalkut Shimoni

O Yalkut Shimoni descreve um diálogo simbólico entre o Eterno e o Messias.

O Eterno pergunta se o Messias aceita sofrer para salvar Israel.

O Messias responde:

> ” Com alegria recebo sobre mim todos esses sofrimentos, para que nenhum de Israel pereça.”

Essa tradição enfatiza o caráter voluntário do sofrimento messiânico.

9. Midrash Pesikta Rabbati

A Pesikta Rabbati afirma que o Messias:

sofreu pelos pecados de Israel;

jejuou e orou pelo povo;

foi ferido pelas transgressões da nação.

O Midrash cita Isaías 53:5:

> ” Ele foi ferido por nossas transgressões…”

Depois conclui que o Messias permanece oculto até o tempo da reunião dos exilados e da ressurreição dos mortos..

10. O testemunho do Zohar

Entre todas as fontes rabínicas, poucas são tão expressivas quanto o Zohar.

No Zohar lemos:

> ” No Jardim do Éden existe um salão chamado o Salão dos Filhos da Doença. O Messias entra ali e chama sobre si todos os sofrimentos, dores e enfermidades de Israel. Se ele não os tomasse sobre si, ninguém poderia suportar os castigos de Israel… conforme está escrito: ‘Certamente tomou sobre si as nossas enfermidades e carregou as nossas dores’.” (Zohar II, 212a)

O Zohar prossegue afirmando:

> ” Quando existia o Templo, os sacrifícios removiam os sofrimentos do mundo. Agora é o Messias quem remove as aflições dos habitantes do mundo.”

Essa declaração representa uma das aplicações mais claras de Isaías 53 ao Messias dentro da literatura cabalística.

Conclusão

O exame do Targum Jonathan, do Talmude, dos Midrashim, do Zohar e de diversos rabinos demonstra que a interpretação messiânica de Isaías 53 não surgiu com o cristianismo. Ao contrário, ela fazia parte de uma antiga tradição judaica preservada em numerosas obras rabínicas.

Embora, a partir da Idade Média, alguns comentaristas tenham passado a interpretar o Servo Sofredor como uma referência coletiva a Israel, importantes autoridades judaicas reconheceram que a leitura messiânica era a interpretação recebida dos antigos rabinos.

Essas fontes descrevem um Messias que sofreria voluntariamente pelos pecados do povo, carregaria suas enfermidades, seria exaltado acima dos patriarcas, de Moisés e até dos anjos, permaneceria oculto por um tempo e finalmente seria revelado para reunir os exilados e inaugurar a era messiânica. Sob essa perspectiva, Isaías 52:13–53:12 permanece uma das mais importantes profecias messiânicas preservadas tanto nas Escrituras quanto na tradição rabínica.

Referências Bibliográficas

IBN CRISPIN, Moshe Kohen. Commentary on Isaiah 53.

NACHMÂNIDES (Ramban). Disputation of Barcelona.

Targum Jonathan sobre Isaías 52–53.

Talmud Bavli, Sanhedrin 98b.

Midrash Rabbah, Ruth Rabbah 5:6.

Midrash Lekach Tov, Números 24:7.

Pesikta Rabbati (Piska 36–37, edições tradicionais).

Yalkut Shimoni, Isaías 60 e passagens sobre o Messias.

Zohar, II:212a.

SCHNEERSON, Menachem Mendel. Likkutei Sichot; Torat Menachem (comentários sobre Isaías 52:13–53:12).

Sociedade Israelita das Sendas Antigas – SISAEN.